- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e148502
- Jan 1, 2026
- Sociologias
- Valdemar João Wesz Junior + 2 more
Resumo As tecnologias digitais têm transformado profundamente diversas esferas da sociedade, inclusive a forma como as políticas públicas são formuladas e implementadas. Embora o tema da digitalização venha ganhando destaque nas Ciências Sociais, ainda são escassas as análises que exploram os riscos e as implicações da transformação digital das políticas públicas. Este artigo analisa o processo de digitalização das políticas de regularização ambiental no Brasil, com foco no Cadastro Ambiental Rural (CAR), apontando para a conformação de um imaginário sociotécnico centrado na intensificação produtiva. Analisaremos então sua aplicação no estado do Pará, a partir de três casos específicos: o setor da pecuária no sudeste paraense, a mineração em Canaã dos Carajás e a produção de grãos no planalto santareno. Do ponto de vista metodológico, o estudo se fundamenta em revisão bibliográfica, sistematização de dados secundários e cartográficos, além de trabalho de campo realizado entre 2017 e 2025, com 46 entrevistas com atores de diferentes setores e instituições. Os resultados indicam que a digitalização não se resume à migração de cadastros analógicos para bases digitais, mas implica uma reconfiguração da lógica das políticas públicas. O CAR, nesse sentido, reforça um imaginário sociotécnico centrado na intensificação produtiva, que altera as dinâmicas de territorialização da política. Embora as tecnologias digitais tenham potencial para a redução de custos e ampliação da transparência e do monitoramento territorial, sua apropriação por grupos hegemônicos pode gerar efeitos significativos de exclusão, invisibilização e expropriação de territórios tradicionalmente ocupados, gerando uma desconexão entre a formalização documental digital e a realidade territorial.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e148482
- Jan 1, 2026
- Sociologias
- Camila Penna De Castro + 2 more
Resumo Este trabalho discute como a noção de segurança jurídica tem operado como um mediador nas diferentes controvérsias envolvendo os setores patronais rurais. Por meio de uma cartografia das formas pelas quais o termo foi mobilizado nos principais canais de comunicação vinculados ao agronegócio no período entre 2015 e 2023, identificamos as diferentes associações que estabilizam segurança jurídica e seus efeitos para a forma como os setores patronais rurais buscaram influenciar a política fundiária e trabalhista. Observamos que a noção de segurança jurídica, da forma como é estabilizada, tem como efeito a normalização da defesa do proprietário rural em todos os seus interesses e de forma absoluta. Como mediador, segurança jurídica produz um agenciamento racializante na medida em que situa o proprietário branco como agente do progresso e da civilização e constrói o outro racializado como agente da insegurança, passível de ser evacuado da terra em nome da autopreservação do Estado e do progresso. Sendo assim, argumentamos que a forma como segurança jurídica aparece estabilizada nas disputas envolvendo o agronegócio atualiza o processo de racialização e de subjugação racial que foi necessário à acumulação capitalista e à concentração de terra no Brasil.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e149057
- Jan 1, 2026
- Sociologias
- Ângela Camana + 1 more
Resumo A cadeia da soja no Brasil vem sofrendo, nas últimas décadas, pressões por parte de mercados internacionais e da sociedade civil. Tais críticas e o surgimento de mecanismos de controle de importações têm ensejado a criação de novas formas de governança e produtos que incorporam promessas de maior responsabilidade e transparência em cadeias de fornecimento. Entre eles, destacamos a soja “livre de desmatamento” como uma alegada solução do agronegócio sojicultor que reivindica responder aos principais problemas ambientais enfrentados pelo setor no Brasil. Compreendemos, dialogando com a literatura em STS e estudos agroalimentares, que os modos como as corporações formulam e divulgam suas iniciativas revelam suas perspectivas sobre os problemas ambientais que consideram (e constroem) como objetos de intervenção. Neste sentido, o objetivo deste texto é comparar as experiências de soja “livre de desmatamento” e/ou “responsável” dos principais arranjos corporativos de governança ambiental no Brasil, examinando as normas de avaliação e definições utilizadas, assim como as infraestruturas de mensuração que atestam o não desmatamento. As principais fontes de análise são protocolos públicos, políticas de fornecimento e relatórios ESG das principais traders da soja no Brasil. Argumentamos que a soja “livre de desmatamento” opera como produtora de tecnopoder na cadeia da soja, legitimando reivindicações corporativas de sustentabilidade e promovendo soluções escaláveis que favorecem interesses do agronegócio. Com isso, o artigo contribui para compreender como o agronegócio brasileiro responde às pressões ambientais por meio de soluções tecnopolíticas que reconfiguram as formas de exercício de poder neste setor.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e151868
- Jan 1, 2026
- Sociologias
- Ângela Camana + 2 more
Resumo Este texto apresenta o dossiê “Agronegócio, Ciência e Tecnologia”, que, ao partir da emergência de novos debates no campo e dos estudos das Ciências, Tecnologias e Sociedades (CTS), sugere às Ciências Sociais reelaborar o agronegócio enquanto categoria analítica, bem como a investigação das operações que viabilizam suas práticas e suas agendas. Argumenta-se que a intersecção entre agronegócio e estudos CTS é um lócus de enunciação original e capaz de matizar debates sobre o tema do agro, sobretudo no Brasil. Sem pretensões de encerrar a discussão ou oferecer caminhos unívocos, considera-se a multiplicidade de agendas e pistas analíticas que emergem deste encontro.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e149140
- Jan 1, 2026
- Sociologias
- Tiago Ribeiro Duarte + 1 more
Resumo Este artigo se debruça sobre o fenômeno que intitulamos de ambientalismo agronegocial, isto é, a mobilização, por parte do agronegócio, de um discurso de sustentabilidade para legitimar suas práticas, a despeito de atores do setor fazerem uso extensivo de recursos naturais. Para tanto, analisamos tematicamente a revista AIBA Rural, publicada pela associação do agronegócio do Oeste da Bahia, buscando compreender as estratégias discursivas utilizadas para construir uma imagem de sustentabilidade hídrica em um contexto de conflito em torno do uso da água. A partir dessa análise, desenvolvemos uma tipologia de estratégias do ambientalismo agronegocial, a qual é composta pelos seguintes conceitos: legalismo sustentável, tecno-otimismo, cientificismo seletivo e conservação ambiental deslocada. O artigo contribui para a literatura das Ciências Sociais ao introduzir uma tipologia inovadora para se compreender como o agronegócio busca construir uma imagem pública de sustentabilidade.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e148429
- Jan 1, 2026
- Sociologias
- Vanessa Parreira Perin
Resumo A ideia de que o Brasil possui uma inclinação natural e inerente – uma vocação –, não apenas para a agricultura, mas para o agronegócio, é um imaginário recorrentemente mobilizado por políticos, empresários, produtores rurais, representantes de associações do setor agropecuário, bem como por cientistas cujos trabalhos se dão na interface com esse segmento da economia nacional. Neste artigo, proponho analisar como o desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias, aplicadas às paisagens diversas dos cerrados e às sementes de soja, viabilizou a consolidação de um mercado global para a versão “tropicalizada” desse grão, bem como potencializou a ideia de uma “vocação” do país para o agronegócio. Argumento, assim, que atentar para a tropicalização da soja permite colocar em perspectiva a ideia de que haveria algo inato às paisagens brasileiras, que impulsiona o desenvolvimento do país rumo à constante expansão da fronteira agrícola. O artigo está estruturado em torno de dois momentos centrais na trajetória da soja nos cerrados e na consolidação do agronegócio brasileiro. O primeiro aborda os processos que viabilizaram a agricultura em larga escala na região central do país, culminando na tropicalização da soja. O segundo examina a formação de sua cadeia de valor – o chamado complexo soja – paralelamente à emergência do próprio agronegócio e ao surgimento de um novo paradigma sociotécnico com a introdução das sementes transgênicas nas lavouras brasileiras.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e138453
- Jan 1, 2025
- Sociologias
- Lucas Trindade
Resumo Esta resenha comenta o livro Florestan Fernandes’ critical sociology: a social theory of Brazil and Latin America, publicado em 2024 pela editora Routledge. Ao realizar uma síntese do argumento apresentado na obra, relevante tanto para iniciantes como para iniciados no trabalho do sociólogo paulista, busco salientar os seguintes aspectos em seus pressupostos e implicações: a reconstrução diacrônica (de 1940 a 1990) das contribuições de Florestan Fernandes para a teoria social e as suas redes político-intelectuais na América Latina; a interdependência das noções de dilema racial, capitalismo dependente e autocracia burguesa como núcleo da sua teoria social; a proposição do “estilo de pensamento de lumpen” como tese chave para compreender o modo próprio de pensar/fazer intelectual e político do autor.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e131501
- Jan 1, 2025
- Sociologias
- Edmilson Santos + 2 more
Resumo O debate aqui proposto sobre a implementação da Lei n.º 12.990/2014 nos concursos para o magistério superior nas universidades federais revela a fragilidade do Ministério Público (MP) na proteção de direitos à população Negra. O objetivo do presente trabalho é investigar a não-aplicação do art. 3º desta Lei nos concursos públicos para o magistério superior. Peticionado via Lei de Acesso à Informação, o MP tem referendado práticas que negam direitos à população Negra. Cargos efetivos e a aplicação do art. 3.º da Norma se transformaram em detalhes, passíveis de não implementação, diante da reivindicação das universidades de plena autonomia para interpretação da Norma. A manifestação do MP sobre oito editais de concurso público para o magistério superior, legitimando o sorteio como a metodologia para seleção das vagas que será aplicada à Norma não deixa dúvidas: o racismo institucional se desnudou dentro da instituição responsável por garantir o Estado Democrático de Direito (EDD).
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e131607
- Jan 1, 2025
- Sociologias
- Nicolás Edgardo Balado Gonçalves + 1 more
Resumo Partindo das recentes pesquisas sobre as esquecidas teses da primeira edição de Raízes do Brasil de 1936, este artigo pretende entender as influências do tipo de Estado aí sugerido ao Brasil. Uma delas, explícita no texto, é o batllismo uruguaio do começo do século XX, e a segunda é o imperador D. Pedro II, admiração que aparece em textos de juventude do autor, anteriores àquela data. Ambos teriam a legitimidade moral sobre facções políticas divergentes, exercendo a autoridade carismática (pessoal), ao mesmo tempo em que se apresentavam como balaústres da ilustração. Ainda que D. Pedro II pudesse carregar o “fardo” do ruralismo, ele foi o grande impulsionador das ciências e das artes no século XIX. Já José Batlle y Ordoñez foi o caudilho que logrou unir blancos e colorados no Uruguai para criar a constituição mais progressista da sua época e das próximas. Como consideráveis autoridades que impulsionaram suas respectivas nações, elas aparecem para Sérgio Buarque de Holanda como os melhores exemplos que poderiam inspirar as lideranças de países cuja identidade é a cordialidade; cordialidade que não aparece como um mal a ser extirpado nessa primeira edição, mas a estrutura psicológica que sustentaria organicamente o Estado e as instituições brasileiras.
- Research Article
- 10.1590/1807-0337/e130399
- Jan 1, 2025
- Sociologias
- Matheus Monteiro Nascimento + 3 more
Resumo A literatura sociológica reitera a existência de desigualdades educacionais associadas às desigualdades sociais. O desempenho escolar e a aspiração por carreiras científicas revelam distinções educacionais, de classe e de gênero. Apesar disso, alguns autores defendem a possibilidade de reversão desse amplo quadro social por meio de práticas individuais no âmbito da sala de aula de ciências. Neste artigo comparamos os efeitos de variáveis macro, meso e microssociológicas no desempenho de aspirantes a carreiras científicas. Adotamos como fonte secundária as respostas de 180 mil estudantes ao questionário do ENEM de 2009 e realizamos uma Análise de Correspondência Múltipla visando compreender as possíveis relações estruturantes das variáveis pluriescalares com desempenho no exame. Concluímos este estudo reforçando a forte influência das variáveis macrossociais na persistência das desigualdades educacionais e apontando possibilidades de mudanças em aspectos mesossociais.