Sobre o significante em deriva e a segmentação como lugar de estabilização
Uma das questões mais desafiadoras das ciências da linguagem trata da relação entre significante e segmentação. Ao tomar como pressuposto a noção de cadeia significante da psicanálise lacaniana, esta pesquisa tratou os formalismos das ciências da linguagem na esfera da interdição ideológica quanto à possibilidade de tratar de marcas linguísticas como constitutivas do dizer, e não propriamente como perturbações ou instabilidades. Por meio de uma teorização sobre a língua e o significante em interface com os estudos do discurso, este artigo mostra de que forma, em uma narrativa oral contada por uma mulher não-alfabetizada, intitulada ‘Bom dia meu cravo, bom dia minha rosa’, o corte do significante escravo contribui para o controle da deriva dos sentidos. No fluxo narrativo, ao enunciar ‘cravo’ o sujeito-narrador mobiliza, no interdiscurso, o significante ‘escravo’. Esta forma de dizer de maneira deslocada é debatida na Psicanálise como um modo de redirecionar a pulsão por meio da negociação com o recalque. No caso, na memória coletiva há uma simbolização sobre a ‘escravidão’. No plano do imaginário, essa simbolização se refere à evidência de que o escravo trabalha sob a condição de servidão a um senhor, como um condenado, tal como aparece na fala da narradora. A necessidade de não ser lembrado sobre esta condição é o que assegura que esse conteúdo recalcado faça com que o sujeito permaneça na posição que se espera de um escravizado, a daquele que não questiona a sua condição. Desta forma, debatemos como o lugar do sujeito-narrador é atravessado por essa memória coletiva, também sob efeito do esquecimento número um em Pêcheux.